Nossos pequenos heróis
Pelo licença à vocês, ouvintes-internautas, para deixar de lado o jornalista, com a visão racional da notícia, para ocupar este post com a homenagem e o desabafo de um pai, um cidadão chocado com a morte brutal de mais uma criança, o garoto João Roberto Amorim Soares, 3 anos, metralhado por policiais militares no Rio de Janeiro, no carro onde estava com a mãe e o irmãozinho. João foi enterrado sob o manto da ingenuidade, da ilusão, dos sonhos - fantasiado de Homem-Aranha (a roupa, inclusive, seria usada por ele no aniversário de 4 anos no fim do mês). Triste ironia para um Ser com passagem tão rápida entre nós e que, na minha opinião, é um herói. Não só ele. Quem não se lembra do João Hélio, 7 anos, cujo corpo foi arrastado por bandidos que invadiram o carro da mãe e ignoraram o fato dele ter ficado preso ao cinto de segurança do veículo (além do nome, o palco da tragédia é coincidente: a cidade do Rio). E porque não destacar os milhares de “Joãos”, crianças pobres brutalmente assassinadas, e que apenas engrossam as estatísticas da chamada banalização da violência nas periferias, não ganhando o espaço condizente na mídia? São heróis, sim! Talvez não com os super-poderes de uma vítima das classes média, média-alta (ainda existe?) ou alta. E aí, podemos voltar ao grande João Homem-Aranha Roberto Amorim Soares, cujos poderes vão desde o lançamento de teias para criar uma rede de solidariedade até a força de nos dar um tapa na cara e nos fazer acordar para problemas tão óbvios que preferimos empurrar com a barriga, para comodidade de governantes e congressistas (ausências, aliás, memoráveis no enterro no nosso herói): despreparo da polícia, omissão do Estado, bandidos e milícias como “protetores sociais”. Restam agora ações concretas, sem hipocrisia! Políticos de plantão: esqueçam que estamos em um ano eleitoral. Não pensem nos dividendos. Aliás, por favor, não pensem. Ajam! Afinal, só mesmo em história em quadrinhos, o super-herói faz tudo sozinho. É muito fardo para os nossos grandes “Joãos”. Até poderia terminar aqui, mas tenho ainda o que confessar. Não posso deixar de mencionar o Paulo e a Alessandra, os pais do João, cujos desabafo colérico e silêncio tocante, respectivamente, mexeram demais comigo e me levaram às lágrimas. E os irmãos do Paulo (creio, pela semelhança física), cujas mãos nos ombros do “mano” durante todo o tempo nos chamaram atenção para a importância da FAMíLIA - em caixa alta mesmo. Paulo e Alessandra, juro que, como pai, tentei me colocar no lugar de vocês. Busquei visualizar a volta para casa, a sensação do vazio, a entrada no quarto do filho querido, a abertura da caixa de brinquedos, as provinhas da escola, o preparo para a situação na qual o caso não vai ocupar mais as manchetes de jornais. É amigos, não consegui. Sabem porque? Não tive o privilégio de conviver com uma criança tão iluminada quanto o filho de vocês e não tenho a força que ele, certamente, os dará para superarem esta tragédia e lutarem pelo fim da impunidade. Eu falei ele? O plural é melhor. Eles! Afinal, vocês têm agora dois super-heróis para cuidar ou serem cuidados: o João, no andar de cima, e o irmãozinho dele, citado no início do texto, aqui no andar de baixo. Com os mesmos super-poderes! Com o auxílio do youtube, destaco a campanha Roupa favorita do Omo Multiação. Deixando a questão comercial de lado, fiquem com a alegria do garoto com a fantasia do super-herói:
http://www.youtube.com/watch?v=BTQKCOeZFR4
Estevão Damázio é jornalista e apresente o programa CBN Brasília, na emissora da capital federal, esse post foi publicado em seu blog, Superquadra : http://superquadra.wordpress.com
segunda-feira, 14 de julho de 2008
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